O que um domingo de remendos me ensinou
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Cá estava eu na minha sala-ateliê.
Sim, é na sala que a mágica acontece hoje.
É ali que convivem minhas máquinas de costura, a mesa do computador e a mesa de refeições, grande demais para o dia a dia a dois, perfeita para transmitir tecidos e ideias.
Acredito que muitas marcas do Brasil agora nascem assim: em um canto da casa, onde a vida acontece junto com os sonhos.
Ali também tem uma janela grande, que deixa a luz entrar generosamente.
E nela… a cortina.
Aquela cortina que já tinha nascido e vivido outra história.
Nasceu em um apartamento de pé-direito alto, quase três metros, enfrentando o sol de Pernambuco com elegância.
Quando voltei para São Paulo, ela veio junto. O teto era mais baixo, então dobrei uma barra generosa em vez de cortar. Poderia ter cortado...mas fiquei com pena na hora.
Com o tempo começou a surgir pequenos rasgos.
Nada grave.
Só aqueles sinais que a gente vê, se incomoda… e deixa para amanhã.
A cada lavagem cirúrgica mais um.
E mesmo com a máquina de costura a poucos passos de distância, eu adiava. Ainda não era insuportável. Ainda dava para ignorar.
Até que, em um domingo, eu parei.
Cancelei o que faria naquele dia.
Tirei a cortina do varão.
Estendi sobre a mesa.
Olhei com atenção.
Foi quando me dei conta: a barra que eu não tinha cortada guardava quase quarenta centímetros de tecido intacto. Protegido do sol. Silenciosamente preservado.
A solução estava ali.
Inverter.
Desmanchei os passadores e os reposicionei onde antes era a barra.
Usei o próprio tecido protegido para fazer os remendos, afinal, remendo novo em tecido velho não conversam bem.
Enquanto costurava, pensei em coisas novas já descartei por pressa.
Quantas decisões foram tomadas por impulso.
Quantas vezes não olhei com cuidado suficiente para aquilo que ainda tinha vida.
Prolongar a história daquela cortina me deu uma paz inesperada.
O remendo ficou discreto.
Quase uma bossa.
Uma nova fase.
Criar, reorganizar, ressignificar o que já existe muda a energia da casa.
E muda algo dentro da gente também.
Talvez nem tudo seja substituído.
Talvez algumas coisas só precisem de presença.
E você…
já parou para olhar com mais cuidado aquilo que está prestes a descartar?
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